Viajando com o diabetes


Todo mundo ama viajar como eu? Acho que sim! Só quem é doido que não curte!

E na hora de viajar pra longe de casa? Como fazer quando vc tem diabetes?

Eu fui para o Uruguai e para a Argentina na semana passada e esse post está bem fresquinho e cheio de histórias para quem quer acompanhar as “aventuras” vividas por lá! Já viajei muito pelo mundo a fora sem a menor noção dos problemas que eu poderia enfrentar mas com o passar dos anos e as carimbadas no meu passaporte fui tomando mais consciência dos cuidados básicos que é preciso ter durante uma viagem (principalmente as internacionais)

Vamos lá?

Antes de decidir o destino das férias em família pesquisamos em blogs de viagens quais seriam os destinos mais versáteis para a minha mãe (que ama compras), meu pai (que ama museus e história) e para mim (que ama bichos e paisagens!). Precisava ser um destino que conseguisse oferecer tudo isso no mesmo lugar, uma tarefa difícil mas não impossível! Então depois de muito olhar, pesquisar, ler, e fazer orçamentos decidimos por Uruguai (Montevidéu e Punta Del Este) e Argentina (Buenos Aires e Tigre). Esse era o melhor custo benefício em tempos de crise do Brasil. :/

Eu já trabalhei com turismo, em uma agencia de viagens, e por conta dessa experiência sempre compro as minhas viagens com agências de turismo. A minha escolhida para esse pacote foi a Venturo Viagens, e o meu agente de viagens foi maravilhoso! O próprio dono da empresa me atendeu e me socorreu nos problemas que tivemos, mas isso é um assunto que vou falar mais pra frente.

Os passos que tomei para começar a planejar a viagem:

  • Escolhemos um destino: Uruguai e Argentina

  • Fizemos o pagamento da viagem em um cartão de crédito que não usaríamos durante a viagem (assim não ficaríamos sem limite de crédito)

  • Checamos todos os documentos necessários para viajar e regularizamos tudo

  • Escolhemos um roteiro dia a dia de todos os passos que faríamos durante a viagem

  • Reservamos e pagamos todos os ingressos e shows que conseguimos para evitar que ficássemos sem vaga/lugar

  • Trocamos um pouco de dinheiro (reais) para as duas moedas dos países (pesos argentinos & pesos uruguaios)

  • Baixamos APP no celular para converter as moedas com mais facilidade

  • Pegamos todos os mapas off-line para celular de todas as cidades que iríamos visitar

  • Consultamos a previsão do tempo para levar somente as roupas realmente necessárias

ÓTIMO! Então chegou o momento de fazer as malas!

Durante uma viagem para o Peru com a minha amiga eu passei um perrengue feio por não ter calculado direito o uso dos insumos da bomba, e quando chegou no meio da viagem, eu fiquei sem os insumos necessários. Foi um perrengue foda de administrar pq isso não é como “esquecer um shampoo”, ou seja, vc nao compra seus insumos em uma farmácia qualquer. Passei o restante da viagem tomando doses de seringa (com a mesma pq havia levado apenas 1) e é lógico que a descompensação foi terrível. Mas eu sobrevivi (por sorte!).

Aprendi a lição e hoje não saio de casa sem o meu kit sobrevivência! Eu sempre levo meus insumos para a bomba para passar no mínimo o dobro do tempo em que eu vou ficar viajando. Nesse caso, ficaria por 8 dias, então levei um estoque para 6 semanas. Para um exagero né? Mas é melhor sobrar do que faltar!Nesse post eu descrevo todos os remédios que eu levo na minha bolsinha emergencial.

Kit sobrevivência diabetes

Além dos insumos dentro da mala sempre levo roupas de frio e de calor, mesmo com a previsão do tempo falando que estaria 24 graus, nunca se sabe o que pode acontecer.

Oba! MALAS PRONTAS!

Chegamos no aeroporto com 3h de antecedência, tudo certinho, check in feito, bagagem despachada e………… vamos tomar um café?

Vamos sim!

Optei por um Nescafé de máquina, um achocolatado mesmo sabendo que havia açúcar na fórmula mas pensei “ok, deve ser como um toddy!”. Fiz a contagem de carbo como 31g (mesmo do toddynho). Me apliquei o bolus e 40 minutos depois: 357!

357 logo nas primeiras horas de viagem? Que saco! Fiz a correção e tudo bem, durante o voo de 2h30 ela abaixou e me senti melhor.

Para passar no raio X do aeroporto no Brasil não tive problemas. Normalmente antes de passar eu já aviso que uso uma bomba de insulina, mas dessa vez não apitou nada e eu passei na boa, sem revista pela policial. Dentro da mochila eu levei: 1 seringa, 1 refil da novorapid, 1 cateter, 1 reservatório, medidor, 1 toddynho, 1 bolacha, e remédios para dores de cabeça e nas pernas.

Rumo a Argentina!

Durante o voo serviram um lanche de pão, frango desfiado e tomate. Lógico que sem tabela nutricional, então a contagem de carbo foi no olhometro mesmo. Considerei um pão francês e dei um plus porque era uma baguete…Chutei 40g e tomei suco light de pêssego.

Medida pós vôo: 123

Chegamos na Argentina!

Pegamos nossas malas e passamos pelo raio X, tudo tranquilo! Nosso transfer estava lá com a plaquinha com o meu nome para nos levar diretamente ao hotel! Maravilha! Só que não!

Ao chegar no hotel a nossa crise começou: o hotel não tinha luz.

Segundo o moço do hotel era um problema no fornecimento da rua e em poucas horas tudo voltaria ao normal. Deixamos nossas malas na recepção e decidimos sair a pé para explorar as ruas próximas e almoçar.

Comemos logo de cara as famosas empanadas argentinas, que obviamente não vem com tabela nutricional e muito menos consta na tabela de contagem de carbo usada aqui no Brasil. De novo dei um chute baseada numa esfirra de carne (31g). Medida pré almoço: 116

Eu na entrada do café Tortoni!

Voltamos ao hotel para tomar um banho e descansar um pouco. Triste ilusão. O hotel ainda estava sem luz, todos os hóspedes estavam no hall do hotel falando alto, bravos, queriam tomar banho ou subir para os quartos mas não havia energia. O recepcionista nos disse “tem água quente, pois é a gás, mas o quarto de vocês é no 6 andar!”. Como é que subiríamos com as malas até o 6 andar? Sem luz de emergência nas escadas, para tomar banho no escuro? E as insulinas na geladeira? E a comodidade que se espera ter durante uma viagem? Nessas horas que eu penso e recomendo: feche suas viagens com uma agencia!

Imediatamente entrei em contato por whatsapp com o Alex, da Venturo Viagens, e ele tomou todas as providências para trocar o nosso hotel! O processo todo levou 2h, acabamos perdendo o show de tango que estava agendado para aquele dia, mas o Alex fez a remarcação e não perdemos os ingressos.

Pegamos um taxi e chegamos no hotel novo, com luz, tudo funcionando. Fui medir e: 432! O stress todo vivido por causa do hotel sem energia, a troca de ligações, o desconforto de fazer meus pais esperar cansados, com sono, sujos, tudo isso mexeu demais com a glicemia e agora eu precisava tomar os meus cuidados para fazer ela baixar, sem ser rápido demais..

Jantamos bife ancho argentino com papas fritas (batatas)….Comi só a carne para evitar os carbos. Fui dormir com 124!

Rumo ao Uruguai!

Acordamos na Argentina e o café da manhã por lá é sempre regado a muito doce de leite: como lidar?

Acabei comendo medias lunas com dulce de leche TODOS OS DIAS! Sim! Me julguem! É uma coisa sensacional, irrespirável, maravilhosa, muito bom! E eu comi. Comia e tomava insulina quase que na mesma proporção! Embora eu já tivesse ido à Buenos Aires 4x, não seria na 5 vez que eu deixaria de aproveitas os doces de leite mais maravilhosos do mundo né?

Após o café partimos para Puerto Madero, onde pegamos um barco chamado BuqueBus. A ideia era atravessar o Rio de La Plata até uma cidade chamada Colonia Del Sacramento, no Uruguai. (para quem está lendo esse post por causa das dicas do destino, não vale a pena viajar de BuqueBus, opte pela empresaSeaCat. O custo das passagens são menores e o embarque é feito dentro do terminal do BuqueBus. No nosso caso, viajamos as 2x (ida e volta) no barco do BuqueBus pois não haviam passageiros para completar um barco da empresa SeaCat, então fomos realocados. Ou seja: pagamos quase q metade do preço e viajamos no barco TOP!).

BuqueBus

A espera para embarcar é a mesma de um aeroporto. Vc despacha suas malas, passa no raio x, entra na sala de embarque e espera, espera, espera…..Enfim, entramos no barco e por lá tinha um barzinho e um freeshop.

Medi e estava 120, com medo da hipo resolvi comer um lanchinho de Jamón y Queso (presunto e queijo: mas o presunto é tipo parma e cru, então se vc nao curte, peça sempre Jamón Cozido, que é o nosso presunto.)

Desembarcamos no Uruguai e alugamos um carro! Oba!!!!

Resolvemos ficar na cidade de Colonia para explorar um pouco, já que era bem pequena, então comprei um chip do Uruguai com internet (o que foi bem barato, cerca de 15 pesos o chip + 20 pesos de créditos para 5 dias = R$ 3,91) e almoçamos por lá. Diabete em 156 pré almoço, e depois do bife com batatas fritas (vc só come carne nesse lugar, é incrível) a glicemia ficou em 119 pós almoço.

E aí começou a zuera de Deus!

De barriga cheia, diabetes controlada, animação, GoPro na mão e muito espírito de exploração alugamos um carro e partimos rumo à Montevidéu. GPS no celular e no carro, tudo ia bem, o tempo aproximado da viagem era de 2h! Sucesso!

Passamos por uma ponte onde o Rio estava muito perto de transbordar e falamos “Nossa, choveu por aqui hein?”

Começamos a ver árvores caídas, placas destruídas, algumas fazendas bem molhadas, uns pastos bem alagados até que a estrada para em um congestionamento. As pessoas estavam fora dos seus carros, caminhoneiros conversando e viaturas de policia chegando a todo momento. A fila de carros era enorme, e eu desci para conversar com algumas pessoas e entender o que era.

A ponte que ligava Colônia a Montevidéu estava totalmente submersa. Alagada. Não dava para passar. Os moradores da região estavam por ali para ver o tamanho do desastre. Entendemos que isso tudo tinha sido reflexo de um tornado que passou por Montevidéu um dia antes. Conversamos com alguns brasileiros que também estavam por ali e todos não sabiam o que fazer. Perguntamos para os policiais se havia uma rota alternativa e eles disseram que sim, mas que também tinham pontos de alagamento e que não era seguro tentar seguir viagem por lá. Os caminhoneiros com seus rádios pediram ajuda para outros motoristas que informaram que a estrada alternativas não era uma opção. Então nossa única escolha era voltar para Colônia e passar a noite por lá.

Tentamos falar com a nossa agencia de novo, e o Alex prontamente atendeu, fazendo uma ligação para o nosso hotel em Montevidéu avisando que não chegaríamos mais naquele dia por causa das condições climáticas e da estrada, e o moço de lá avisou “se não chover durante a noite é capaz que a água abaixe”. Quando estávamos já saindo para voltar para a cidade um dos policiais disse “corram pois a ponte que liga aqui até Colônia pode estar embaixo d’água também, ela estava no limite”. E daí lembramos da ponte que vimos na estrada já no limite de transbordar.

Meu pai quis tentar a rota alternativa, já eram 16h, logo ficaria escuro, e não sabíamos direito qual era a estrada certa. Nosso GPS não indicava o caminho por lá, meu celular não tinha sinal, e começou uma discussão sobre se tentaríamos seguir em frente ou se voltaríamos para a cidade. Fiquei com medo.

E se a rodovia fosse precária, sem postos de gasolina? Sem placas de identificação? Não sabíamos quanto tempo de viagem aquela estrada iria tomar para chegar até Montevidéu, não sabíamos nem mesmo se ela estaria livre ou alagada também. Depois de muita discussão avaliamos que seria perigoso demais, com uma pessoa diabética dentro do carro, se aventurar em um local desconhecido. E para piorar nem tínhamos tanto dinheiro do país pois íamos trocar quando chegamos a Montevidéu.

Tudo poderia acontecer: muito tempo de estrada, carro quebrado e a gente sem dinheiro, tanque vazio, estrada deserta, podíamos nos perder e não tínhamos ninguém para ligar e nos ajudar, e pra piorar o celular não tinha sinal. Todo esse stress da decisão, discussão calorosa sobre qual caminho tomar, lógico que a glicemia foi lá pro céu: 559!

Decidimos passar a noite em Colonia, pegamos um hotel qualquer e quando entramos o desespero era geral. As pessoas estavam perdendo voos, feiras, reuniões, congressos, e muita gente como nós, perdendo reservas em hotéis.

A noite toda choveu muito, e de manhã a notícia não foi nada boa. Montevidéu estava caótico e a ordem do pessoal do hotel de lá era: VOLTEM PARA ARGENTINA.

E foi o que fizemos.

Rio De La Plata subindo muito!

Olha onde a água chegou na árvore!

Voltando para Argentina:

Tivemos que mudar nossas passagens de volta no barco Buquebus de volta para a Argentina. Essa mudança foi relativamente fácil, conseguimos trocar as passagens mas na hora de embarcar: um atraso de quase 2h! O embarque estava lotado, todo mundo que estava no Uruguai fazendo turismo ou o que quer q fosse estava voltando para a Argentina de barco, correndo, rápido, e meio no desespero.

A imigração da Argentina estava tão lotada que os agentes não conseguiam dar conta da quantidade de pessoas passando pela fronteira.

Pegamos as águas do rio Del Plata super mexidas, reflexo do tornado e das fortes chuvas, o barco balançou tanto que as coisas dos bares e do freeshop caíam no chão. As pessoas começaram a passar mal, vomitando…olha, foi uma coisa de dar medo! Mas chegamos bem em terra firme 2h depois.

Moral da história